Querido por gerações, Toni’s é patrimônio de Petrópolis

Carolina Freitas

Ambiente onde dividir é o mesmo que somar, na lanchonete a matemática foge à regra. Feito para ser compartilhado, assim é o Toni’s: restaurante perpetuado por gerações e que tem na base de seu atendimento a tradição. Patrimônio local, a Rua do Imperador, 870 é lar de fregueses, memórias e da satisfação que reside em sentir-se em casa.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Mais do que visitante, quem frequenta o Toni’s tem também um quê de viajante que passeia por lembranças. Fundado há 63 anos, o empreendimento tem na sua história a de milhares de petropolitanos que enxergam na lanchonete o reflexo de toda uma cidade e, para a surpresa e alegrias de tantos, o empenho em preservar um modo próprio de receber.

É fato. Não tem quem não se comova diante do estabelecimento. Da arquitetura que remete aos antigos diners americanos à apresentação e simpatia dos garçons, o público, automaticamente, se sente acolhido e bem-recebido. Carioca, Paulo Calleri tem 67 anos e, há mais de um terço deles, é frequentador do Toni’s.

Cativado pela satisfação da casa em atender, ele é a prova de que, às vezes, a composição de garçons fala mais alto até do que a comida. “O ponto alto do restaurante é o bom humor deles. Estão sempre dispostos a conversar. É uma relação amistosa, de companheirismo, que faz a gente ficar e se sentir bem onde está”, descreve.

Cortês, o atendimento evolui para laços duradouros. “Ao longo desse tempo, fiz amizade com vários deles: Geraldo, Vanderlei, Paulinho, Ailton, Hugo, Tião”. Agradável para quem frequenta e colabora com a casa, a lanchonete tem como marca registrada, além das pizzas, banana split e milkshake, um corpo de funcionários praticamente inalterado.

       

Com um longo histórico de aposentadorias, o Toni’s é do tipo onde o funcionário constrói carreira, família e uma rede de apoio sem igual. Sebastião de Souza, de 62 anos, é hoje o garçom mais antigo da casa, com 41 anos de história. Tião, como é mais conhecido, teve no local e único emprego. Ele já se aposentou e continua a dividir seus dias com a clientela.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Natural de Rio Pomba, Minas Gerais, Tião chegou a Petrópolis com seus 18, 19 anos. Começou na faxina, “carregou água da Praça Dom Pedro até o restaurante” e, depois, se tornou garçom. Certo de que a clientela é também uma família, ele fala sobre o conjunto de aprendizados adquiridos, sendo o maior deles aquele que o dinheiro não paga.

“É uma história em um local só. Às vezes tem cliente que liga do Rio e fala: Sebastião, estou indo para aí. Depois chega, te procura, elogia. Não são as conquistas materiais que eu tenho em casa. O reconhecimento é a maior riqueza”. Também vindo de Minas é o garçom Ailton Otílio que, de 61 anos de idade, tem 34 deles de colaboração à empresa.

Nascido em Muriaé, ele obteve o acolhimento necessário para, além de sugestões de refeições, trocar histórias com os fregueses e, junto deles, gerar aproximação. “São gerações de namorados que casam, voltam com os filhos e netos. E eles também nos conhecem, perguntam das nossas famílias. Nos abraçam, tratam com carinho”.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Casa de todos

Sinal de carinho e companheirismo, é certo que grande parte do que o Toni’s representa é herança dos valores cultivados por José Gabino Pérez Rodriguez. Administrador da casa desde 1971, o espanhol de 83 anos continua a dividir seu carisma com o público, que tem nas noites da lanchonete o prazer de encontrá-lo para agradáveis conversas.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Combinação entre a preocupação genuína em bem atender e a tradição em garantir o retorno da freguesia, o Sr. Gabino é retrato do Toni’s: acolhedor, simpático e ponto de partida para histórias. No Brasil desde 1957 e atuante no comércio petropolitano desde 1959, ele foi sócio do Marabar, Fuka’s, Patinhas e, até hoje, do Toni’s.

Desde 1986 em seu atual endereço, a lanchonete, que antes operava um pouco mais adiante, onde agora está localizado o Spoleto, é sinônimo de patrimônio. Inspiração para o filme Banana Split, estrelado por Myrian Rios em 1988, o estabelecimento é retrato de diferentes gerações, seus hábitos e o imutável costume de frequentar o local.

Foto: Arquivo Toni’s

Homenagem ao filho do fundador do negócio, um austríaco refugiado da Segunda Guerra que, de Petrópolis, foi morar na Austrália, o Toni’s se tornou a soma de todos com que ele se relacionam. Familiar e comprometida em manter o padrão e a qualidade já estabelecidos, a lanchonete cativa mesmo aqueles que já conheceram o mundo.

“Temos um cliente aqui que faz parte do Ministério de Relações Exteriores e viaja muito. Ele já esteve em diversos países e disse que roda o mundo inteiro, mas que tem que vir comer o x-burger do Toni’s. São coisas que cativam a gente”. Sócio de Sr. Gabino, Marcos Rego, de 60 anos, já celebra 36 anos de caminhada e envolvimento com a empresa.

Graduado em Engenharia Civil, Marcos veio de Niterói para Petrópolis junto do pai, o Sr. Teixeira – durante anos dono da antiga lanchonete Freddy – e no Toni’s planejou, projetou e executou projetos; não necessariamente aqueles que envolvem pontes, viadutos, estradas e túneis, mas que impactam igualmente na vida da população.

Foto: Petrópolis Sob Lentes

Junto do Sr. Gabino, Marcos garante a manutenção do patrimônio a que tantos já estão acostumados a recorrer: um projeto que, certamente, também demanda dedicação, estudo e comprometimento. Não à toa o espanhol costuma se referir a ele como o “Dr. Marcos”, o que comprova a essência de um negócio marcado pelo envolvimento.

“É esse convívio familiar que tem no Toni’s que o diferencia. Muitos se aposentaram, outros faleceram, mas os funcionários são antigos e os fregueses gostam disso. O nosso marshmallow é feito aqui. A carne do nosso hambúrguer também. São diferenciais que fazem do Toni’s aquilo que ele é”, aponta.

Essência recebida com sucesso pelo público, a lanchonete, para o jornaleiro José Carlos do Amaral, de 71 anos, representa um modelo de negócio dificilmente encontrado na modernidade. Há meio século na praça, ele afirma: “é o estilo de casa tradicional que não existe mais em Petrópolis pela educação, roupas e atendimento dos garçons”.

Ambiente ideal para se render às boas recordações, o Toni’s é um capítulo do passado petropolitano vivo no presente, mantido pela tradição e querido por gerações.

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